DJ Overule, um nome bem conhecido dos leitores da DanceClub – foi um dos primeiros artistas destacados na iniciativa ‘DemoClub/Novos Talentos’ – lançou “Hustle Days Rave Nights”, um álbum de originais que marca um momento importante na sua carreira, explorando a dualidade entre o esforço diário e a celebração noturna.
Com um percurso sólido na música urbana e eletrónica, o DJ e produtor português fala sobre o processo criativo deste disco, as colaborações, a evolução da cena eletrónica em Portugal e os desafios da profissão.
Nesta conversa, revela as histórias por trás de algumas faixas e partilha a sua visão sobre o futuro da música e dos DJs.”
O teu novo álbum “Hustle Days Rave Nights” reflete a dualidade entre trabalho árduo e celebração.
Como surgiu esta ideia e de que forma isso se traduz nas faixas do disco?
Esta ideia foi ganhando forma à medida que ia concluindo o álbum. Ao analisar as faixas que tinha terminado, apercebi-me de que o disco apresentava duas vertentes distintas: uma mais urbana e outra mais eletrónica. Esta dualidade refletia-se não só no estilo musical, mas também no contexto de audição, com algumas músicas a encaixarem-se melhor no quotidiano e outras mais voltadas para um ambiente noturno e festivo, como o de uma rave.
Disseste que este álbum conta a história da tua vida. Há alguma faixa que tenha um significado especial ou que represente um momento marcante da tua carreira?
Não diria especificamente da minha carreira, mas sim da minha vida pessoal. Os temas ‘Last Dance‘ e ‘U&I‘ são particularmente especiais para mim, pois foram dedicados com muito carinho às minhas filhas. Ambas refletem momentos marcantes da minha vida, incluindo uma separação e o afastamento forçado que tive delas.
Além disso, o tema que dá nome ao álbum simboliza a dualidade presente tanto no disco como na minha carreira — entre a luta diária e os espetáculos noturnos. O tema ‘Focused‘, por sua vez, representa essa determinação no trabalho, muitas vezes em detrimento da vida boémia.
Por fim, a faixa que encerra o álbum é uma homenagem à escola de produção francesa (Daft Punk, Cassius, Justice, Kavinsky, entre outros), que teve uma influência enorme no meu percurso enquanto DJ e produtor.
Existe música de boa qualidade e música de fraca qualidade. Essa é a única distinção!
Misturas elementos de música urbana e eletrónica. Como consegues equilibrar esses dois universos?
Para mim, é algo absolutamente natural, porque nunca vi a música como um catálogo de estilos. Sempre a encarei de forma simples: existe música de boa qualidade e música de fraca qualidade. Essa é a única distinção que realmente importa para mim. Por isso, misturar elementos da música urbana e eletrónica surge de forma espontânea e sem esforço.
O single “After Party” esteve no Top 200 do Spotify Portugal. Como foi trabalhar com o TT nesta faixa e qual tem sido o feedback do público?
Curiosamente, “After Party” foi um dos temas mais rápidos de compor e finalizar para o disco. Tudo aconteceu de forma muito fluida e natural. Já conheço o Tiago há vários anos e, inclusive, já tínhamos trabalhado juntos noutras demos há algum tempo, mas acabaram por ficar na gaveta, pois nenhum de nós ficou totalmente satisfeito com o resultado final.
No final do ano passado, enquanto trabalhava neste beat, publiquei um pequeno story a ouvir a demo. O Tiago respondeu logo, dizendo que sentiu imenso a vibe e pediu-me para lhe enviar, porque gostava de experimentar algo ali. Dois ou três dias depois, enviou-me os vocais, e nesse momento percebemos que era exatamente aquilo que queríamos para o tema. Finalmente, tínhamos feito algo juntos – algo que já estava destinado a acontecer há anos.
Às vezes, as melhores coisas surgem assim: de forma espontânea e natural.
Tens outras participações de artistas convidados no álbum. Foi fácil juntar as pessoas que querias?
Na verdade, nunca é fácil. É sempre uma logística complicada, porque cada artista tem a sua própria agenda. Além disso, em alguns casos, o processo tem de passar pelos managers e labels, o que pode acrescentar mais etapas. No entanto, as participações que consegui para este álbum aconteceram de forma muito natural e fluída, mesmo à distância.
Hoje em dia, a maioria dos artistas tem os seus próprios home studios e preferem trabalhar ao seu ritmo, no conforto do seu espaço criativo. Curiosamente, os únicos com quem gravei presencialmente foram os Supa Squad; todas as outras colaborações foram feitas remotamente!
O que podemos esperar dos teus próximos passos? Tens planos para levar “Hustle Days Rave Nights” para os palcos com uma tour especial?
Sim, toda a agenda de espetáculos para 2025 servirá também para promover o disco. Não será uma tour dedicada exclusivamente ao álbum, mas integrarei sempre ações de promoção nos concertos. Isto inclui banners personalizados, meet & greets, sessões de autógrafos e, claro, a presença de vários temas do disco no alinhamento dos meus DJ sets e espetáculos!
Temos assistido a um grande declínio dos clubs de eletrónica em Portugal!
És um DJ muito de “estrada”. Qual é a tua visão sobre os clubs de música eletrónica em Portugal neste momento?
Infelizmente, temos assistido a um grande declínio dos clubs de eletrónica em Portugal, algo que, aliás, não acontece apenas no nosso país. No entanto, no nosso caso específico, esta tendência já se vinha a notar há algum tempo, mesmo antes da pandemia. Já vínhamos a observar uma queda na qualidade, seja a nível musical, do serviço ou até mesmo da criatividade dos promotores, muitas vezes sacrificada em prol do lucro fácil e imediato.
Felizmente, o mercado dos eventos tem vindo a crescer, e, pessoalmente, tenho tido mais atuações em eventos do que propriamente em clubs. No entanto, este é um problema que afeta a indústria e tem também uma componente cultural, pois há pouca vontade de arriscar e criar algo novo e diferente. Continua-se a seguir demasiado aquilo que está na moda, mas o problema é que, na sua maioria, o que está na moda tem pouca qualidade.
Sinceramente, não vejo grandes mudanças a curto prazo nesse sentido. Ainda assim, é positivo notar que, embora de forma pontual e sazonal, temos vindo a assistir a um aumento de eventos bem organizados, com produções cada vez melhores e mais ambiciosas em Portugal.
Qual é o teu setup atual de DJ em “tour”?
Neste momento estou a usar o novo controlador da Pioneer o DJM REV7, com o qual estou muito satisfeito, pois é uma peça só, leve, fácil de transportar e que faz exactamente o mesmo que fazia com 2 gira-discos e uma mesa de mistura. Além disso uso o sampler MPX16 da Akai, um microfone Shure Sm58 e headphones da Beats by Dre.
Que conselhos podes dar a novos DJs que estão a começar?
O meu principal conselho é que façam mais trabalho de casa. A base da diferenciação, da criatividade e do aperfeiçoamento técnico está na preparação que se faz antes de subir ao palco. Isso inclui criar remixes, edits ou bootlegs, desenvolver transições únicas e treinar misturas e técnicas regularmente.
Além disso, o marketing e a promoção são fundamentais nos dias de hoje para conseguir boas oportunidades.
No entanto, de nada serve ter uma excelente estratégia de marketing se não fores um DJ competente em termos de técnica, seleção musical, identidade e leitura de pista. O marketing pode dar-te visibilidade, mas só a tua qualidade enquanto DJ te permitirá construir uma carreira sólida e duradoura.
A música é um escape para muitas pessoas. O que gostarias que os ouvintes sentissem ao ouvir “Hustle Days Rave Nights”?
Acima de tudo, quero que sintam a viagem que tentei proporcionar. Acredito que este é um dos discos mais ecléticos que irão ouvir, com temas que exploram diversas nuances e camadas, tanto ao nível do ritmo como dos acordes e melodias. Por vezes, essa diversidade manifesta-se até dentro de uma única faixa. O tema House Keeping, por exemplo, foi uma das produções mais complexas que já fiz, com cerca de 94 pistas – para mim, foi quase como compor uma sinfonia! Tive um enorme cuidado na escolha de sons, samples, instrumentos e todos os elementos que dão vida ao álbum. Espero que quem o ouça embarque nesta viagem e que sinta a sua intensidade – que vibre, ria, chore, se arrepie e, acima de tudo, dance muito!
“Hustle Days Rave Nights” já está disponível nas principais plataformas digitais
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