Sexta-feira, Novembro 24

Somos Anti EDM ou Estamos Velhos?

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Criticamos a música ouvida pelos mais jovens, achamo-la repetitiva, formulaica, simplória, sem acrescentar nada de novo à cena musical, mas não são estas algumas das críticas que se dirigem a toda a música electrónica? O EDM, quer gostemos dele ou não, é o estilo que enche festivais, que os miúdos gostam e dançam. Urge então perguntar se seremos anti EDM da mesma forma que os nossos pais foram anti techno, e os nossos avós anti rock? Será que alguma vez a música de eleição dos mais jovens foi aceite pelas gerações mais velhas?

Nos anos 50 o rock and roll, a música da nova geração da altura, sofreu variadas formas de censura. Em 1955 as estações de rádio que passavam rock em Chicago recebem 15 mil cartas acusando-as de tocar música “suja”. Em 1957, Elvis Presley actua no programa de TV The Ed Sullivan Show e é filmado apenas da cintura para cima uma vez que a sua dança era considerada “indecente”. Na década seguinte, em 1965, muitas estações de rádio recusam tocar “(I Cant Get No) Satisfaction” dos Rolling Stones, por considerarem a música demasiado sugestiva. Os episódios sucedem-se, ainda que decrescentemente, até 2012, quando as Pussy Riot são presas por actuar numa igreja. Mesmo que nos nossos dias já não assistamos a censura explícita, afinal vivemos no mundo livre, continua a existir censura social, e numa cena que amadureceu – a música de dança conta já com mais de três décadas em Portugal – os que viveram o início da cena nacional são hoje pessoas de meia idade.

Entre 1981 e 1988, em Detroit, nascia a cena techno, um estilo de música baseado num kick repetitivo e, com ela, todo um novo movimento contra este novo estilo de música. Aquilo que hoje é cool já foi controverso e alvo de muita crítica. Portugal não foi excepção, no final dos anos 80 e nos anos 90 com a chegada do techno às discotecas a reacção geral também foi de desagrado, aliás para ouvir música electrónica naqueles tempos era preciso ir a locais específicos, o Frágil, o Alcântara-Mar, o Kremlin, e alguns bares do bairro alto, apenas para mencionar alguns. Todas as casas restantes passavam rock. Cresci, como muitos, nos anos 90 a ouvir techno e a ir a raves underground. Recordo bem como muitos se dirigiam naquela altura ao techno: “isso não é música, são martelinhos”. Mesmo nos dias de hoje, se falaram com músicos e instrumentistas, muitos dir-vos-ão que techno, ou música electrónica, não é música, é barulho. Que é demasiado simplista, que é formulaica e repetitiva.

A adolescência e a juventude são os tempos da vida em que associamos a música a sentimentos intensos, são também fases de grande energia – física e mental – que a música que ouvimos tende a reflectir. Foi assim com os riffs de guitarra do rock, com a batida do techno e é agora com os drops de EDM. Mais do que o gosto de cada um é preciso compreender a funcionalidade da música, e vemos grandes nomes da cena techno a mostrar a sua compreensão para este fenómeno, uma das mais inteligentes é a forma como Carl Cox explica o que, para ele, é o EDM: “O EDM é um nível de entrada na música de dança, e estou muito feliz com isso. Lutámos durante tanto tempo para que a música de dança fosse respeitada ali. O EDM é uma sonoridade que se colou na América, mas assim que as pessoas começarem a ir para a direita ou esquerda nessa cena vão encontrar os seus Art Department, os seus Loco Dice e os seus Sven Väth – e esse é um óptimo local para estar.”, a sabedoria de Carl Cox provou ser certa, com a EDM e os seus grandes festivais a ver uma coabitação pacífica entre os palcos principais – com artistas EDM – e os palcos secundários underground.

Numa entrevista à Groove Magazine, em 2014, Aphex Twin espelhou o generation gap quando lhe pediram uma opinião sobre EDM: “Não se parece com nada do que estou a fazer. Este tipo, o Skrillex, só ouvi as músicas dele porque os meus filhos as ouvem. Ele aparenta ter um bom domínio da tecnologia. Eu acho que é bastante pop, não é? É muito pop para mim.”

Villalobos, numa entrevista à Crack Magazine em 2015, afirmou “Não posso condenar o EDM ou a música pop comercial se as pessoas democraticamente decidem que é isso que querem. Pessoas com os mesmos interesses não vão para a guerra matar-se umas às outras. É difícil matar alguém com quem partilhas valores semelhantes.”

Podemos não gostar, não respeitar, temos todo o direito de não querer ouvir, mas talvez seja inteligente aprender com os mestres acima como coabitar sem misturar e mostrar que há espaço para tudo e todos, como de facto há.

Outros textos sobre este tema que podem ser interessantes para quem quiser aprofundar a reflexão:

“Music: Why do most people from the previous generation hate and criticize the music of the current generation?”
Por Neil Sarver
Na Quora

“Why Do We Always Sell The Next Generation Short?”
Por Adam Thierer
Na Forbes

“People have always whinged about young adults. Heres proof”
Por Amanda Ruggeri
Na BBC

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