Quinta-feira, Outubro 18

Origens da House Music em 11 Clássicos

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A house music revolucionou a cultura de dança e a tecnologia da noite impondo mudanças sociais vigorosas e até reformas políticas estatais. Veja-se o caso de Inglaterra no pico da cena Rave. Nos últimos anos, a comunidade da música electrónica vem redescobrindo e reinterpretando alguns dos maiores êxitos da história da house music, num movimento tipicamente retro-house. Por momentos, ficamos com a sensação que a house music atingiu o seu apogeu, extremada e saturada nas suas várias direcções e quadrantes, e que o caminho possível é de volta à casa de partida. Conheça aqui algumas das principais músicas que fundaram e, provavelmente, mais impulsionaram a cena da house music, contagiando mundialmente as pistas de dança da década de 70 e 80, numa altura em que a cultura house despontava dos guetos maioritariamente negros e gays dos EUA, bem distante da indústria milionária e pluri-racial dos dias de hoje. Nesta viagem no tempo, serão apresentadas as versões biográficas de 11 músicas que estimularam a House Music.

Por Samuel Pombo
1. Ce Ce Rogers ‎– “Someday” 

Originalmente lançada no fim dos anos oitenta, mais precisamente em 1987, someday resultou da inspiração e colaboração da lenda do house de Chicago, Marshall Jefferson, com a voz refinada e assustadoramente soulful do novaiorquino Ce Ce Rogers. Um disco arrebatador, com um piano particularmente intimista, em que os vocais têm um poder emocional grandioso. Música esteticamente imponente, aclamada como a grande instigadora do deep house, subgénero da house music conhecido pela complexidade melódica, predominância de tons menores, vocais suaves e elegantes, com influências do ambient, jazz e disco. Persistindo num som confortável e relaxante, é decerto uma composição que nos embala e fixa no poder vocal de Ce Ce Rogers.

2. Joe Smooth ‎- “Promised Land”

“Brothers, sisters…” são palavras inconfundíveis. Promised Land é um dos maiores hits da cena house jamais feitos. Lançado em 1987, foi gravado no berço de toda a música house, Chicago. Na sua versão original participaram Dohn Connely e Joe Smooth na produção e Anthony Thomas nos vocais. Alcançou em 1987 a posição 56 no UK Singles Chart. Considerado um hino à liberdade e anti-segregação, contagia pela sua energia optimista, consubstanciada numa batida enérgica. É sem sombra de dúvida uma faixa de celebração e exaltação, que transcende o seu título.

3. Kraze – “The Party”

“Y’all want the party started? Right?”. É um clássico old school em absoluto. É um original de 1988, lançado pelo projecto ‘Kraze’ pela MCA records. Tema incontornável, com uma tendência electro-pop, foi essencialmente catapultado por uma batida sólida e uma voz estridentemente arrastada. Simplesmente estonteante. O homem por detrás deste conceito é Richard Jean Laurent, um novaiorquino que fez sucesso na altura em que o house começava a florescer nos clubes underground dos EUA. É tido como um tema imprescindível no sucesso da exportação da house music para a Europa. 

4. Bizarre Inc – “I’m Gonna Get You” 

Música inspirada na faixa de Jocelyn Brown, “Love Is Gonna Get You”, de 1985, foi depois retocada com o loop vocal de Dupree “Yo DJ Pump This Party”. Bizarre Inc. é um grupo de Stafford, Inglaterra, constituído por dois DJs britânicos, Dean Meredith e Mark “Aaron” Archer. Reuniram-se em 1989 e recrutaram mais dois DJs, Andrew Meecham e Carl Turner. É um hit tremendo de 1992, catapultado pelos poderosos vocais da diva Angie Brown e por uma batida drum-n-base enxertada num estilo house. Este single alcançou a posição 1 na dance charts dos EUA e atingiu um respeitável 47 na Billboard Hot 100. 

5. The Beloved – “The Sun is Rising”

Claramente um clássico para ver nascer o Sol. Lançado em 1988 pelo grupo britânico The Beloved, a música atingiu a posição 27 no top do Reino Unido em Setembro de 1989. Num estilo house ambiente, a faixa combina uma batida possante incorporada numa atmosfera sombria. Para muitos, “The Sun is Rising” personifica o início da cena rave em Inglaterra. Na verdade, a velocidade com que o acid house explodiu no verão de 1988 em Inglaterra tomou todos de surpresa. Milhares de jovens eram atraídos por um movimento sentido como verdadeiramente contracultura, ao mesmo tempo que as autoridades locais, os media e o público em geral, alertavam para o aparecimento de um fenómeno socialmente desviante de grupo. Começava a crescer a “Geração Rave” e o ambiente nocturno mudava, não só pela vertente musical mas também pela implantação das drogas no espaço recreativo, nomeadamente, o ecstasy. No fim dos anos 1980, era o boom mundial da house music e da cultura dance na Europa, através do surgimento das raves ilegais, movimento também conhecido como “Second Summer of Love”.

6. Marshall Jefferson – “Move Your Body” 

“Move Your Body” figura como o verdadeiro “CLÁSSICO” da house music. É considerada a música que provavelmente baptizou e catapultou o estilo musical House a partir do seu acutilante refrão “gotta have house”. Originalmente produzido por Marshall Jefferson no final da década de oitenta, mais precisamente em 1986, foi das primeiras faixas house, senão mesmo a primeira, a usar o piano como elemento central na ordenação musical. O ritmo melódico do piano, balanceado com estocadas de teclado, dirige a maior parte da música. A base de percussão e instrumentação electrónica torna a faixa ritmicamente apelativa. É dos temas mais memoráveis de toda a música de dança, transportando a influência do house de Chicago de Marshall Jefferson, tido como um dos pioneiros da house music. O house de Chicago refere-se geralmente à house music que foi produzido durante a década de 80 em Chicago. Não pretende definir um estilo musical vedado mas apenas as sonoridades tipicamente house que foram produzidas em Chicago na década de 1980. Muito das edições na altura não eram disponibilizadas para comercialização, encontrando-se apenas em discos de vinil pressionado ou em cassetes. 

7. Alison Limerick – “Where Love Lives (Come On in)” 

Criado e produzido por Lati Kronlund em 1990, é um disco fresco, sincopado e belissimamente cantado pela britânica Alison Limerick. Várias circunstâncias tornam este disco ímpar. Seja porque foi mixado por Frankie Knuckles (classic mix), considerado o embaixador da house music, porque tem provavelmente a secção de teclas mais notabilizada de sempre, ou porque há vários anos que põe em êxtase as pistas de dança, principalmente na sua versão remisturada de 1996, Dancing Divas, “Where Love Lives” é considerado o tema estruturalmente mais bem conseguido da house music. A influente revista Mixmag classificou-o no primeiro lugar do seu top dos 100 maiores sucessos de dança de todos os tempos, justificando essa posição pela perfeição do tema. Em 2011, a revista DJ Mag também incluiu o tema nas 100 mais importantes músicas de house de sempre.

8. Inner City – “Big Fun”

Big Fun é, a par de Good life, um dos hits memoráveis do grupo Inner City. Lançado em 1988 na casa mãe do techno, Detroit, por uma dupla de produtores, Kevin Saunderson e Juan Atkins, esteve no top em vários países, nomeadamente no Reino Unido e nos Estados Unidos. Algo distante de aquilo que seriam as sonoridades essenciais do techno de Detroit, caracterizado pelo lado minimalista, parco de vocais, a música Big Fun impôs-se nas tabelas de música electrónica principalmente por usufruir de aquilo que mais identifica a música house, a perfeita harmonia entre os vocais, a batida e a melodia. Na voz de Paris Grey, esta comunhão tornou-se de sobremaneira inspiradora.

9. Baby D – “Let Me Be Your Fantasy”

Tema originalmente lançado pela Production House Records em 1992, no auge da cena rave, foi durante 2 anos considerado um tema underground. Apenas se tornou número um no Reino Unido em Novembro de 1994, quando re-lançado pela London Records. Escrito e produzido por Floyd Dyce e com vocais de Dorothy Fearon, é reputado para muitos como o maior êxito comercial que a cena rave alguma vez produziu. O sucesso deriva da melodia da voz e do piano sobreposta numa batida forte, seca, ligeiramente fragmentada ao jeito drum and bass.  

 

10. Black Box – “Ride On Time”

Foi gravado em 1989 pela banda italiana Black Box, projecto musical constituído pelo DJ Daniele Davoli, programador Mirko Limoni e o músico Valerio Semplici. “Ride On Time” é dos temas com maior efeito da house music, não só na Itália, mas no mundo inteiro, e é, provavelmente, um dos mais controversos também. Foi número 1 em várias tabelas e ainda hoje figura entre os Top 100 singles mais vendidos na Europa. Porém, a sua polémica prende-se com o facto de os produtores terem reutilizado os vocais da diva da Disco Loleatta Holloway, da música “Love Sensation”, de 1979 e usarem uma modelo, a belga Katrin Quinol, para posar e “cantar” em modo de sincronização labial nos programas de TV e video-clips. Esta contenda conduziu a que os Black Box acabassem perdendo muito dos lucros provenientes do sucesso de “ride on time”, pois foram processados violentamente por Loleatta Holloway por usarem os seus vocais sem a devida autorização. 

 

11. Joey Beltram – “Energy Flash”

Criada em 1991 por Joey Beltram, esta faixa levou a música de dança para outro nível. É um disco house sombrio, intensamente sinistro, que para muitos ultrapassava os limites da house music e, presumivelmente por isso, ainda hoje é apelidado de um disco techno. Quando aquela batida inicia, carregada de graves e repleta de obscuridade, quase primitiva, a aceleração cardíaca é automática. Ainda hoje é surpreendente. Quem a toca, escala invariavelmente o seu ambiente musical para um registo agressivo mas extasiante. Aliás, a sua acapela, num ruído sussurrante e aterrador, diz tudo. Ecstasy!! … Ecstasy!! … Ecstasy!! A combinação do acid house com o ecstasy criou a tempestade perfeita, revolucionando a cultura de música de dança a partir de uma relação tecno e psicologicamente sinérgica, em que efeito euforizante e empatógeno desta nova substância psicotrópica proporcionavam um clima mental de aceitação e promulgação de toda uma nova gama de sonoridades house. A música era conduzida pelas drogas e as drogas conduziam a música.    

 

 

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