Quarta-feira, Novembro 14

Manter o Ego do DJ sob controlo!

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Como a indústria da música electrónica está a subir à cabeça dos DJs?

Os DJs sempre se apresentaram com uma certa arrogância, natural e própria de lhes ser consagrado o atributo de autoridade no âmbito musical. Por exemplo, em termos de conhecimento musical, orientação de tendências e de educação do ouvido alheio. A própria consignação de “arte” à prática de DJing é em si mesmo uma asserção levemente presunçosa. Nada de anormal. Todavia, a cultura da música electrónica está a mudar e parece estar a subir à cabeça dos DJs. O meio underground confinou-se e rebentou uma cultura de espectáculo à semelhança da cultura pop/rock. Alguns DJs deixaram de estar acantonados na penumbra da cabine, apenas estimulados pela batida amplificada da munição, pela luz fragmentada do flash ou pelos efeitos de fumo e passaram para o palco principal de uma industria rock-star, cinematográfica e potencialmente mercenária. Já lá vão os tempos em que a cena de música de dança definia um evento de pertença e comunhão grupal, de usufruto da música, num contexto social de marginalização.

A reputação do DJ alterou-se. Foi profissionalizado, endeusado e ultrassalariado. Alguns, passaram da modéstia para serem multi-milionários. Aqueles que fazem parte da elite das celebridades são pagos a peso de ouro (às vezes para tocarem apenas poucas horas ou apenas simular que tocam…), viajam em jactos privados e circundam-se de modelos Hefner.ianas.

Na verdade, ser um DJ famoso não tem nada que ver com ser um bom DJ.

O DJ existe controlado pelo seu Ego que se alimenta vorazmente desta Industria. Vive refém de uma exposição narcísica na medida em que está totalmente centralizada no seu ego. Vivem dominados pela fama que os precede, que os impele ao comportamento de Diva com H grande. Há quase como uma perda de identidade do ego. Outrora qualificados como eruditos arquivistas de sonoridades “secretas” para a pista de dança, transformaram-se (ou travestiram-se, espero não estar a ser acintoso e obviamente não generalizo) em vigorosos entusiastas de massas juvenis, meros agradadores de plateias. O ego já não se sente pressionado pelo perfeição técnica da mistura e da selecção musical mas sim pela manutenção da fama alavancada pelos media e pelo improviso das encenações audiovisuais. Chegamos ao ponto de ter celebridades sem qualquer experiência de DJing. Teatro e faz-de-conta. Na verdade, ser um DJ famoso não tem nada que ver com ser um bom DJ. Vou explicar: a melhor maneira de seres famoso é criares um tema, de preferência foleiro, mas que entre para uma tabela de chart qualquer. Depois é simples. As pessoas irão escutar-te pelo teu tema mesmo que sejas um DJ apenas “jeitoso”. Manda o marketing e as razões comerciais. Podem ser palavras cáusticas mas malogradamente certificadas pela realidade.

As circunstâncias deixaram de estar subordinadas à experiência sensorial auditiva. O foco sensorial modificou-se. O público agora encontra-se de telemóvel em riste ou siderado a olhar na direcção do DJ em vez de simplesmente se permitir absorver pela música e se perder numa atmosfera colectiva e intima na pista de dança. Passaram a ser espectadores de um espectáculo e o DJ é para ser eminentemente observado. Talvez por isso, os DJs agora estão focados na interacção com o público, necessitam do contacto com o olhar para seduzir a audiência para assim conferirem sucesso do espectáculo através do entusiasmo histriónico dos espectadores.

O teu ego poder-te-á dominar se em vez de te focares simplesmente na música e no prazer de a partilhar com os outros começares a ser presidido por motivações de ser famoso, rico, sexualmente atractivo, de construíres uma imagem e apareceres na imprensa ligada a música de dança, tocares apenas o que terá absolutamente aprovação do público ou tocares as novas tendências para agradar os promotores e conseguires contratos, mesmo que as detestes…. Um DJ poderá ter problemas com a opulência do seu próprio ego se apresentar algumas das seguintes características: demonstração de comportamentos ou atitudes arrogantes e exigências de cariz excêntrico (facto alimentado também pelos promotores); sensação grandiosa sobre a própria importância (exagero no teu talento, “the King”), demanda de admiração excessiva e necessidade de reconhecimento superior aos feitos correspondentes, com reacções emocionais de desagrado significativas quando isso não acontece por parte dos outros; preocupação com fantasias de sucesso ilimitado; crença em ser “especial” e único na arte de DJing; quebra de regras próprias de moralidade explorando relações interpessoais, por exemplo, tirar vantagem de outros para atingir os próprios fins; relutância em reconhecer as qualidades dos colegas DJs, sendo mesmo altamente critico e invejoso e acreditar que os outros é que o invejam, quebrar descaradamente regras éticas básicas do oficio, exemplo típico, ir fazer um warm up e tocar a maioria dos sucessos de forma a esvaziar e dificultar a vida ao DJ que vai tocar a seguir.

Quanto maior o tamanho do teu ego, maior o teu esforço para o alimentar e maior o espaço de vazio para preencher.

Os DJs eram democraticamente anónimos e isso não só dava uma componente enigmática à cultura de música electrónica como uma liberdade de acção que hoje a ditadura da industria não o permite. Tornaram-se uma ferramenta de marketing facilmente instrumentalizada e encontram actualmente sucesso profissional na celebração e exploração dos media cibernéticos sedimentada na exposição do seu ego. A aparência visual do ego prevalece no espaço de actuação, com o DJ a ser subjugado pelo seu próprio ego.

Para um banho de humildade, Simon Reynolds, na sua incrível obra “Energy Flash”, notabilizando o êxito de Beltram, responde da seguinte forma à pergunta ”o que é o DJ?”: alguém que põe a tocar os discos dos outros. É cru, mas coloca os “pés no chão”. Recordo que, quanto maior o tamanho do teu ego, maior o teu esforço para o alimentar e maior o espaço de vazio para preencher. Why does my soul Feel so bad? (Moby, Porcelain).

Se há coisa que eleva o ego é sentires-te em controlo de uma plateia de amigos e anónimos a vibrar ao som dos discos que poes a tocar. Simplesmente isso!

Texto: Samuel Pombo
Professor de Psicologia da Faculdade Medicina Lisboa

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