Sexta-feira, Outubro 30

In Memoriam: Erick Morillo

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

O maior legado de Erick Morillo será, provavelmente, o número de pessoas que inspirou ao longo da sua carreira: DJ, produtores, público anónimo que salvou vezes sem conta numa pista de dança. O mundo acordou hoje consternado com a notícia da sua morte, a 1 de Setembro de 2020, em Miami, onde vivia. 

A Dance Club dedicou-lhe quatro capas ao longo dos anos de actividade. A primeira, em 2002, a propósito da sua actuação no Isle of MTV na Torre de Belém. A entrevista decorreu no, então, hotel Carlton (hoje Pestana Palace), durante a hora de almoço na varanda da suíte que ocupava com vista para o jardim. Como em qualquer entrevista inaugural pedi-lhe que falasse do início da sua carreira, algo que já deveria ter contado vezes sem conta. Fê-lo sem pestanejar, sem dar o mínimo sinal de aborrecimento por ter que revisitar uma história contada inúmeras vezes. Era assim, simples, apesar de ser uma estrela no mundo da electrónica. Para essa simplicidade contribuíram certamente as suas origens humildes, filho de colombianos radicados numa Nova Iorque dos anos 70 e 80, onde cresceu e participou do nascimento de novas sonoridades e de uma cena musical onde viria a prosperar anos mais tarde.  

 

Sónia Silvestre entrevista Erick Morillo para a capa da Dance Club 66 (foto: João Prata)

 

Do underground ao mainstream

1982 foi o ano que viu o pequeno Erick interessar-se, com apenas 11 anos, pela arte da mistura. Contou-nos que o vizinho de cima era DJ e, que ao vê-lo tocar, se apaixonou e correu para casa para pedir à mãe o material. Esperou cinco ou seis meses mas ganhou, finalmente, uns pratos Scott e uma mesa Gemini, material barato mas com o qual provou que não é o que se têm, é o que se faz com aquilo que se têm. Começou a tocar em todo lado: festas, casamentos, baptizados, qualquer local em que lhe pagassem para isso. Transformou o pequeno quarto nova-iorquino numa cabine e praticou todos os dias, depois das aulas, até ter 18 anos. Cerca de sete anos a aprender a misturar, sete dias por semana, três a quatro discos diferentes em simultâneo. Só uma profunda paixão justifica tamanha entrega e sacrifício. 

Em 1989, aos 18 anos, decide fazer um curso de engenharia de som até que descobre que, para ser engenheiro de som, terá que ficar três anos em regime de internato. Desiste do curso e não opta por fazer um curso de produção por não se considerar musical.

“Não fiz um curso de produção porque não me considerava musical. Musical no sentido em que pensava que, para fazer música, tinhas que saber música e eu não tocava nenhum instrumento. Era musical porque ouvia muita música. Naquela altura ainda não me tinha apercebido que tudo o que é preciso é um bom ouvido.” Erick Morillo in Dance Club Nº 66

Transforma a cabine em estúdio e começa a fazer edits de música de outras pessoas. Como tocava num club em Nova Jérsia, o Shanghai Reds, toca um dos seus edits e é abordado por El General, considerado o pai do reggaeton, que o convida para produzir para ele. Dos três discos que produz, não recebe um centavo porque, como é habitual, não assinou contrato ou sabia alguma coisa da indústria e El General consegue ter o single latino da Billboard do ano de 1991 com “Muevelo”. Apesar do encontro com El General ter sido uma desgraça em termos monetários, foi ele quem lhe apresentou Mad Stuntman, o vocalista dos Reel 2 Real com quem Erick viria a criar o maior êxito da sua carreira, “I Like To Move It”. 

Depois desta experiência agridoce com a música latina, Erick decide mudar e começar a tocar house. Demorou um ano a conseguir chegar ao nível que queria enquanto produtor de house music. Empreendedor e lutador, munido de “New Anthem/Funky Buddha”, o tema de estreia dos Reel 2 Real, vai à Strictly Rhythm. A editora nova-iorquina fundada por Gladys Pizarro e Mark Finkelstein abre-lhe a porta e começa a editar a sua música. Aliás, quem lhe deu a alcunha de Erick “More” Morillo foi Gladys, quando Erick lhe entrega quinze remisturas do mesmo disco. A versão original de Gladys é: “More for your money Morillo”. 

“Mais” foi, aliás, uma tónica da vida e obra de Erick Morillo. A sua produção musical tornou-se tão intensa naqueles tempos que teve que assinar música por diversos pseudónimos: Ministers de la Funk; Lil Mo Yang; Pianoheadz; The Drones; RAW; Smooth Touch, entre outros permitiam que lançasse música todos os meses. 

1992 foi o ano em que tudo mudou: “I Like To Move It” explode mundialmente e Erick vê o seu prazer transformado em profissão. A partir desse momento passou a sentir a pressão mas, também a partir daí, teve oportunidades que até então lhe estavam vedadas. 

“Tive a oportunidade de ir a Inglaterra pela primeira vez e ver cultura DJ que não existia nos Estados Unidos. Nós inventámos o house mas eles fizeram a cena house. Vi house a passar na MTV, na rádio, nas lojas, nos clubs com duas mil pessoas a dançar e vibrar com um DJ. Foi aí que me apercebi que era isto mesmo que queria. Acabámos o álbum dos Reel 2 Real, começámos a tour. Eu fazia o management (naquela altura não havia managers para a música de dança nos Estados Unidos). Acordava às nove da manhã no meu quarto-estúdio, onde ainda tinha duas mesas e dois amigos a trabalhar, via as ofertas de trabalho, que choviam depois do sucesso de ‘I Like To Move It’, coordenava tudo com as editoras. Tive muito treino, muito novo, na área do management e da indústria musical. Foi muito importante para mim.” Erick Morillo in Dance Club Nº 66

O sucesso altera-o, faz com que o seu foco mude da música para a indústria e para o negócio. Nos anos que se seguiram, e graças às oportunidades com os Reel 2 Real, conhece muitos artistas e profissionais da indústria, mas o factor comercial dos Reel 2 Real e o facto de a música destes não ser tocada pelos DJ desencantou-o com o projecto. Sai dos Reel 2 Real depois de gravar o segundo álbum.

 

Erick Morillo no Sasha Summer Sessions (foto: David Gros)

Erick Morillo no Sasha Summer Sessions (foto: David Gros)

 

O regresso ao underground

Erick Morillo perdera, com o projecto Reel 2 Real, a credibilidade underground e, por esse motivo, os DJ não tocavam a sua música. Quis regressar às origens e, para isso, precisaria de reconquistar a credibilidade perdida. Em 1997 cria a Subliminal Records com o apoio de Mark Finkelstein da Strictly Rhythm, que lhe garante o apoio a nível de gestão. 

“A ideia não era ganhar dinheiro mas ter uma editora que respeitássemos.” Erick Morillo in Dance Club Nº 66

Assim foi, a Subliminal Records só se tornou rentável após cinco anos de actividade, mas permitiu a Erick recuperar o lugar que tanto desejava: a credibilidade junto dos seus pares, mas Erick viria a empurrar esse patamar para um nível que o mundo ainda não tinha visto transformando-se na primeira superestrela do DJing mundial. Viagens em jactos privados, cachets milionários, vários shows num dia, exigências de catering e logística dignas de estrelas de rock, tudo isto foi Erick que inaugurou para os DJ, muito antes de David Guetta ou os Swedish House Mafia existirem na cena musical. 

Durante mais de duas décadas Erick Morillo correu o mundo a partilhar aquilo que melhor sabia fazer, o que treinou anos a fio da sua juventude, o que era a sua paixão: a arte da mistura. Mas fez mais que isso, elevou-a a novos patamares de exigência e criatividade musical. 

Os últimos anos foram duros, tanto a nível pessoal como profissional, por um lado perdeu o estatuto central na cena electrónica com o aparecimento de novos artistas, novas correntes musicais, novas tendências e o inevitável distanciamento que a idade traz para com o público mais jovem, os grandes consumidores de música e os responsáveis por eleger as estrelas. Por outro, a nível pessoal, os problemas com drogas, o casamento falhado e a recente alegação de violação, a qual enfrentou entregando-se à justiça, acrescentaram uma dimensão maior de dificuldade a uma carreira já em fase descendente. 

As circunstâncias da sua morte estão ainda por apurar e sob investigação, mas as da sua vida vão ser lembradas por todos quantos foram tocados pelo seu talento. A autora deste texto incluída. Naquela noite de 2002, com a Torre de Belém por trás, Erick Morillo mostrou que existiam mais dimensões musicais acessíveis a um DJ com o talento dele. Fez música ali, combinando elementos de música de outros, gravada, criou algo nunca antes ouvido a partir de temas bem conhecidos. Se até àquele momento considerei que os DJ não eram músicos, consigo precisar-vos que foi Erick Morillo quem provou que o são, mesmo sem saber ler uma pauta. 

Erick Morillo (foto: David Gros)

Erick Morillo (foto: David Gros)

 

Rest in power, Erick. 

 

Sónia Seara Silvestre, 2 de Setembro de 2020

Comments

comments

Share.