Sexta-feira, Novembro 24

Gostar de música é saudável, trabalhar na música é que não!

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Um alerta dos riscos para a saúde mental de ser DJ

Avicii doente

Avicii, DJ/produtor sueco com sérios problemas de saúde após entrar no mundo da música.

Diante das exigências de uma actividade de DJing marcadamente liberal e idealizada, torna-se importante realçar que muitos Djs sacrificam a sua saúde emocional em prole de uma carreira profissional auspiciosa. Nesse sentido, a saúde mental deve consubstanciar-se como um foco de atenção na Cultura de Música Electrónica. Este assunto terá foco neste artigo.

Viajar, ser admirado, tocar para centenas de pessoas, usufruir do que as cidades e praias têm para oferecer, desfrutar com amigos, etc, etc, etc … Embora se fantasie sobre a vida de sonho dos DJs profissionais, revelações recentes de várias figuras de destaque da indústria da música electrónica têm mostrado que nem sempre é o “mar de rosas” que se pensa. São sobejamente conhecidos os vários internamentos de Avicii (na foto) e Erick Morillo por causa da dependência de álcool e drogas e encontramos também exemplos do desgaste na vida pessoal de uma carreira ligada à música electrónica nas obras autobiográficas de Moby e Laurent Garnier.

Segundo o Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, 1 em cada 5 indivíduos apresenta um problema de Saúde Mental em Portugal, e os DJs não são excepção. Aliás, podemos mesmo presumir que eles representam um grupo da população particularmente susceptível a esses problemas, em virtude de um estilo de vida inconstante, por vezes incerto outras vezes verdadeiramente frenético, e pouco respeitador dos ritmos biológicos circa-dianos (sono-vigilia).

Muitos dos factores que promovem uma boa saúde mental são amiúde descurados, tais como uma boa noite de sono, uma dieta saudável e equilibrada e uma rede social de suporte regular. Adicionado a isso existe um padrão laboral com horários nocturnos flutuantes (às vezes até diurnos-matinais), privação de luz solar, incompatibilidade com hábitos familiares, e uma exposição significativa a toda uma gama de substâncias psicoactivas potencialmente nocivas.

Por exemplo, torna-se difícil resistir ao álcool e às drogas que se apresentam ora como mecanismo de adaptação subconsciente de uma vida emocional exigente e desgastante, simbolização de um estilo de vida aparentemente glamoroso, ou ritual enraizado numa cultura club dada aos excessos. O álcool é muito eficaz como “lubrificante” social ou para anular a ansiedade antecipatória de performance.

A privação crónica do sono pode levar a um sistema imunitário comprometido, aumentando assim o risco de ansiedade e depressão.

O trabalho na indústria da música pode, de fato, predispor para problemas de saúde mental

Recentemente, visando desconstruir o estigma comumente associado aos problemas psicológicos e desencadear uma discussão aberta sobre a depressão e outras condições ligadas à saúde mental e bem-estar emocional dentro do sector da música, foi levado a cabo o primeiro estudo académico (University of Westminster) sobre a relação entre a música e a saúde mental, intitulado “Music and Depression” (MAD). O foco da pesquisa foi ouvir diretamente de músicos e outros que trabalham na indústria da música em geral, sobre as suas condições de trabalho e como eles sentiram que isso afetou o seu bem-estar mental. 30.8% dos inquiridos, de um universo de 2,211 músicos, provinham da música de dança e electrónica. Os primeiros resultados sugerem que, embora os artistas encontrem satisfação na música, o trabalho na indústria da música pode, de fato, predispor para problemas de saúde mental. A mais impressionante de todas as descobertas foi que os músicos parecem sofrer de problemas de ansiedade e depressão de uma forma significativa: 71,1% de todos os entrevistados acreditavam ter sofrido ataques de pânico e/ou altos níveis de ansiedade e 68,5% relataram ter sofrido de depressão. Os inquiridos atribuíram a uma variedade de razões: Más condições de trabalho em que inclui a dificuldade de estabilizar a vida, as horas de trabalho anti-sociais, o cansaço e a incapacidade de planear o tempo/futuro. A falta de reconhecimento do seu trabalho, impacto físico de uma carreira musical (como distúrbios músculo-esqueléticos) e questões relacionadas com problemas de ser mulher na indústria – por exemplo, de equilibrar o trabalho com os compromissos familiares, atitudes sexistas e até mesmo assédio sexual.

Tenha presente que, nalguns casos, o comportamento “louco”, excêntrico, imprevisivel, ou excessivamente intenso de um Dj (comportamente este culturalmente integrado e até exaltado na indústria da música electrónica), pode camuflar um desgaste emocional importante ou até mesmo problemas de saúde mental sérios.

Sendo assim, o que importa saber sobre saúde mental?
Todos as pessoas experimentam variações emocionais causadas por acontecimentos de vida. Isso é comum. Todavia, algumas vivências vão além destas reações emocionais normais e são geralmente mais duradouras e invasivas. Estas situações podem implicar um problema de saúde mental, uma condição que afeta o pensamento, sentimento ou humor e o comportamento do indivíduo. Não são produto de fraqueza individual, falta de caráter ou educação deficitária. A ciência mostra que resultam sim de uma conjuntura de múltiplos factores de vulnerabilidade que vão desde os genéticos, ambiente (familiar) e estilo de vida, que quando confluem promovem o aparecimento dos sintomas. Um trabalho stressante, uma vida familiar conflituosa, a vivência de acontecimentos traumáticos contribuem para que algumas pessoas sejam mais suscetíveis a problemas de saúde mental.
São sinais ou indícios comuns de algum tipo de problema de saúde mental a preocupação ou medo excessivo, sentir-se demasiadamente triste ou “em baixo”, pensamento confuso ou dificuldades de concentração, alterações extremas do humor, sentimentos intensos ou prolongados de irritabilidade ou raiva, evitar com alguma insistência os amigos ou atividades sociais, sensação de cansaço e baixa energia constantes, mudanças nos hábitos alimentares, como aumento da fome ou falta de apetite, mudanças no desejo sexual, dificuldade em perceber a realidade (a pessoa experimenta e sente coisas que não existem na realidade objetiva), abuso de substâncias como álcool ou drogas, aparecimento de múltiplas doenças físicas sem causas óbvias (como dores de cabeça, dores no estômago, “dores e dores” vagas e contínuas), ou pensar com alguma insistência na morte ou suicídio.

Em conclusão, embora incipientes, os dados que se conhecem sobre a saúde mental dos indivíduos que trabalham no mundo da música electrónica são preocupantes. Ao que parece, ouvir e produzir música são importantes para a saúde mental, até mesmo terapêuticos, mas uma carreira no mundo da música insurge-se como destrutivo.

Texto: Samuel Pombo
Professor de Psicologia da Faculdade Medicina Lisboa

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