Terça-feira, Agosto 22

Por dentro do cérebro que mistura discos!

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

A arte de “misturar de ouvido” vista pelas neurociências

Este artigo visa compreender como a “arte de misturar” de ouvido e tocar discos vinil (digital Djing não será abordado) é processada pelo cérebro e como acarreta a montante a activação ordenada e sincronizada de uma série de estruturas cerebrais.

Pelo seu fascínio e natureza recreativa, a prática de DJing consagra-se enquanto forma de expressão artística pós-moderna. Saber misturar de ouvido, manejando perfeitamente o vinil, sempre foi encarado com uma técnica prisioneira de talento natural e de criatividade singular. Qualidades que permitem a assinatura de um estilo musical inigualável. Qualquer coisa que alguns têm e outros não, por muito que se esforcem. Esta visão tem contribuído para a glorificação de uma habilidade psicomotora sofisticada num dom aclamado por muitos como a “arte de misturar”. Porém, ainda que possamos encontrar algum fundo de verdade nesta perspetiva, assaz romântica, as perícias de um DJ radicam em algo mais tangível, substancial e essencialmente mais complexo. Residem no funcionamento do cérebro. É por isso que, embora condicionado por faculdades inatas, muitas horas de trabalho aproximam invariavelmente a prática de DJing a um nível mais próximo da mestria. Isso deve-se a alterações do e no cérebro. Nesse sentido, será lógico pensar que os Djs têm uma organização cerebral diferente da população, até mesmo daqueles que simplesmente se limitam a apreciar música.

Para efectuar uma mistura, o cérebro de um DJ terá forçosamente de descodificar os dois sons e para o efeito terá de efectuar uma tarefa que, para um ouvido pouco treinado, representa um enorme desafio mental

Na verdade, passado uma série de mecanismos mecânicos e neuroquímicos, o som é um fenómeno mental. Ouvir, tocar e criar música envolve praticamente todas as partes do cérebro, tendo algumas áreas particular preponderância. Apesar de não existirem literalmente áreas específicas do cérebro ligadas a funções específicas, poder-se-á dizer que, embora o cérebro funcione como um todo superior à soma de suas partes, existem zonas com uma certa vocação para determinadas operações mentais e comportamentais. Misturar implica a activação dos centros auditivos e de memória, do lobo frontal para o planeamento, bem como o córtex motor e sensorial na medida em que exige a coordenação do controlo manual e do contacto sensorial. Para além disso, a escolha musical acarreta na maioria das vezes a estimulação de um sistema de recompensa emocional associado ao prazer (ver figura).

Uma mistura não é mais do que uma transição suave e/ou progressiva de uma faixa para outra dentro de uma sincronização dos seus respectivos tempos. O objectivo consiste em sincronizar duas músicas de maneira a que os seus ritmos assentem esteticamente um sobre o outro. Por norma, inicia-se a reprodução da segunda faixa em sincronia com o tempo do tema que se está a ouvir ao vivo. Quando o ajuste é correcto as músicas permanecem sincronizadas, porém, se há desajuste e elas se separam há que reacertá-las no tempo. Desde logo, misturar mobiliza cerebralmente habilidades complexas de escuta e de destreza manual para a coordenação mão-ouvido. Ouvir música representa, em si mesmo, uma complexa e enérgica experiência neuronal, onde várias partes do cérebro têm que actuar em conjunto para decifrar até mesmo a sonoridade mais elementar. Para perceber de uma forma simples o percurso do som ao nível do cérebro: o estímulo auditivo é captado pelo ouvido através da vibração do tímpano. A partir dai, o sinal é transformado num impulso eléctrico e é enviado pelo nervo auditivo rumo ao cérebro, mais especificamente ao córtex auditivo, parte do lobo temporal (situado sensivelmente por cima das orelhas), onde o som é processado e é feita a análise das características mais rudimentares da música, como o tom e volume. É no córtex auditivo que é interpretado o som. Contudo, esta informação é também processada por outras estruturas cerebrais.

Para que se aprenda a misturar é imprescindível fazer-se uso dos vários tipos de memória que o cérebro consagra. A memória diz respeito às inúmeras informações que são captadas diariamente pelo cérebro e que depois, com o tempo, são armazenadas ou eliminadas. Cada vez que se escolhe um tema para encaixar numa programação musical é evocado pelo cérebro uma enormidade de informação que previamente foi guardada, registada e classificada mentalmente. O cérebro recorda cada introdução, pausa, transição, ou silêncio que compõem cada faixa ou, por exemplo, qual a reacção provocada ao misturar determinado disco com outro. Este acesso directo, consciente e voluntário à informação no cérebro é proporcionado por um tipo de memória designada de declarativa. É a memória que faculta o conhecimento geral da estrutura das músicas e que pode ser acedida deliberadamente pelo cérebro. Ainda assim, há todo um processo que se vai mecanizando com a experiência e que se desenrola numa prática cada vez mais automatizada. Por exemplo, é natural algumas músicas provocarem inconscientemente uma ressonância afectiva boa ou má ou até mesmo evocarem por associação outros discos disponíveis na colecção. O cérebro vai instintivamente escolher um disco subsequente sem perceber racionalmente o porquê. Simplesmente acontece. Todo este processo é subconsciente e é admiravelmente executado pela memória processual, aquela que funciona sempre que se coloca em marcha comportamentos automáticos como andar de bicicleta ou conduzir, e que foge à nossa consciência, ou seja, não precisamos de pensar para fazer. Embora não exista uma localização específica para a memória, existe uma estrutura pequena, situada bem no centro do cérebro, chegada aos lobos temporais, que é considerada a principal sede da memória: o hipocampo. O hipocampo vai ajudar-nos a recuperar faixas semelhantes no nosso arquivo de memória e persuadir subrepticiamente a escolha do próximo disco a entrar no alinhamento. Uma lesão no hipocampo impede a pessoa de construir novas memórias, o que poderia provocar, por exemplo, a sensação permanente de estar a ouvir uma faixa pela primeira vez, mesmo após escutada repetidamente. Seria sempre uma faixa nova.

É a função do lobo pré-frontal do cérebro que vai assessorar as capacidades de sincronização e ajustes de velocidade entre os discos. Uma aptidão soberana de um DJ.

Na realidade, a “arte de misturar” não depende apenas da versatilidade da memória ou da integridade do circuito neuronal auditivo, subordina-se também a toda uma gama de processos mentais dos quais se destaca aquela que é, por excelência, a função cerebral que organiza o comportamento humano e concilia toda a actividade mental: a função executiva, situada no lobo pré-frontal – massa cinzenta que reveste a fronte do cérebro. É esta capacidade que permite a resolução de problemas complexos, planificação, antecipação e previsão de objectivos, fluência verbal, pensamento abstracto e moral e a organização do comportamento. Por exemplo, é a função do lobo pré-frontal do cérebro que vai assessorar as capacidades de sincronização e ajustes de velocidade entre os discos. Uma aptidão soberana de um Dj. Ora vejamos: o controlo de velocidade (pitch control) serve para definir a velocidade do disco de uma forma constante. Para que se emparelhe as faixas é por vezes necessário acelerar a marcha do disco, quer deslizando o pitch ou executando com a mão. Quando as músicas se dessincronizam com um ligeiro adiantar ou atrasar do disco, é necessário recuperar de novo a perfeita sincronização. De início, é normal que o cérebro apenas detecte grandes diferenças de velocidade entre dois discos a tocar em simultâneo, todavia, com a prática, o cérebro irá paulatinamente melhorar a sua capacidade de encontrar pequenas desajustes, muitas vezes sem qualquer mecanismo voluntário e consciente. Como se o cérebro tornasse óbvio aquilo que ao começo era subliminar. Aquilo que outrora implicava um enorme esforço cognitivo para aprender, exigindo uma atenção esforçada, com repetição, tornou-se num hábito com baixos custos energéticos – optimização do cérebro. Um cérebro treinado desenvolve a capacidade de detectar precocemente um potencial desacerto nas músicas, ou seja, identifica a dessincronização muito antes de ela acontecer, permitindo uma correcção expedita da mistura. Quase como se o cérebro de um DJ criasse uma imagem virtual de um potencial desalinhamento e mobilizasse uma resposta antecipatória que permite manipular o som de uma forma dificilmente apreendida por um leigo que escuta o som ao vivo. Este aperfeiçoamento das competências mentais de um DJ só é possível porque o cérebro tem a capacidade de aprender, em última instância, de se modificar. A isto chamamos neuroplasticidade, neste caso, a adaptação dos circuitos neuronais que serve para optimizar funções necessárias à prática de Djing.

Por vezes, é importante perceber como soa a mistura que se avizinha e, nesse sentido, torna-se necessário reproduzir a mistura nos auscultadores para ter uma ideia de como poderá ficar ao vivo. Enquanto uma faixa está a ser projectada no exterior, a maioria dos DJs desloca um dos auscultadores a fim de se manter actualizado do som que está a passar no exterior, ao mesmo tempo que, com o ouvido que está no auscultador, escuta a nova faixa. Deste modo, fica-se virtualmente com uma música em cada ouvido. Algo que para um cérebro musicalmente leigo representaria unicamente uma cacofonia. Este mecanismo mental de gerir dois estímulos auditivos em simultâneo e em competição no cérebro, pode ser definido como escuta dicótica. Este procedimento faz com que se envie simultaneamente duas faixas para o cérebro, ou seja, duas fontes complexas e altamente encriptadas de informação. Para isso, são criadas duas vias auditivas preferenciais no cérebro: a informação da música que toca no ouvido esquerdo é enviada para o cérebro direito e do ouvido direito para o cérebro esquerdo. Esse cruzamento inter-hemisférico da informação está relacionado com uma área que é critica na conectividade entre o cérebro esquerdo e direito, o corpo caloso. Em rigor, podemos dizer que temos dois cérebros, o esquerdo e o direito. A metade esquerda controla o lado direito do corpo e a metade direita controla o lado esquerdo do corpo. A função do corpo caloso é efectuar a transferência de informações entre os dois cérebros para que funcionem com harmonia. Para efectuar uma mistura, o cérebro de um Dj terá forçosamente de descodificar os dois sons e para o efeito terá de efectuar uma tarefa que, para um ouvido pouco treinado, representa um enorme desafio mental, pois implica ter simultaneamente dois discos a tocar, vindo de circunstâncias (exterior/coluna e interior/auscultadores) e intensidades diferentes, e ter de os separar para identificar e isolar a estrutura das músicas ao mesmo tempo que os funde para aferir da qualidade da mistura. Para que o cérebro efectue este procedimento altamente aprimorado de escuta dicótica, ele terá de se socorrer da função que organiza a estimulação ao nível da consciência, a atenção, a qual é responsável por filtrar selectivamente a informação veiculada pois se o cérebro atendesse por igual a todos os tipos de estimulação, criaria um caos mental. Para que isso não aconteça, a atenção selecciona um foco ao mesmo tempo que tem de anular ou inibir muitos outros. Mas repare-se na exigência da tarefa cognitiva, em que o cérebro não tem apenas de discriminar uma sonoridade e inibir outras mas sim dar atenção a dois estímulos auditivos altamente complexos e analisá-los em simultâneo. Ouvir duas músicas ao mesmo tempo, aferindo, por exemplo, se as suas batidas estão escrupulosamente sobrepostas requer um grande foco de atenção. Como o cérebro não está habitualmente acostumado a situações onde tem de escutar e reagir a dois elementos complexos ao mesmo tempo com tal precisão, ele tenta naturalmente “fechar” um dos canais de entrada de informação. Ou seja, a competição inter-auricular promove a supressão funcional de uma das vias. Para que um Dj tenha as duas músicas válidas no cérebro para misturar, é fundamental que se crie uma “imagem mental” harmoniosa, virtualmente centralizada no cérebro. O truque passa pelo ajustar do volume dos auscultadores. Se o som do auscultador do ouvido ou da coluna exterior for significativamente mais alto do que o outro, tornar-se-á o som mais dominante, lateralizando o som e alterando assim o equilíbrio entre a música dos auscultadores e o som projectado no exterior.

O que nos faz gostar de uma determinada música é a sua experiência emocional, muitas vezes, a sua fruição. Quer isto dizer que seleccionamos as músicas pela sua forte capacidade de provocar emoções agradáveis. Os estudos mostram que o núcleo accumbens, área relevante no processamento do reforço (associado ao prazer), está ligado à experiência emocional positiva. A música estimula os centros de recompensa do cérebro causando a produção de dopamina, essa mesma substância neuroquímica produzida noutros comportamentos como comer, fazer sexo e consumir drogas. Para além disso, a capacidade da música em mobilizar uma poderosa resposta emocional parece resultar também da produção de expectativas e da antecipação de auges emocionais. Por exemplo, é o que justifica o clímax emocional de uma música, ou seja, aquela energia e sensação de urgência emocional (“goosebumps”), às vezes quase extasiante, aquando do reinício da batida a meio de uma música. É do seu envolvimento com os centros emocionais que a música electrónica pode tornar-se numa especial e poderosa força motivadora.

Texto: Samuel Pombo
Professor de Psicologia da Faculdade Medicina Lisboa

 

Comments

comments

Share.