Quarta-feira, Outubro 18

Como Editar Música

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Por Editoras ou Edição de Autor?

Nos nossos dias, com a internet e inúmeros meios de disponibilizar música gratuitamente, talvez a discussão se deva iniciar pelas vantagens e desvantagens de editar por editoras tradicionais.

Certamente que qualquer músico ou produtor sonha em editar por grandes editoras, selos que acrescentam prestígio e credibilidade ao trabalho de um produtor musical. E sonham alto. Sonham bem, diríamos nós, se é para ter objetivos há que ser ambicioso, desde que mantenham o foco sempre naquilo que é mais importante: a música.

A resposta à pergunta – se vale a pena editar música por editoras tradicionais – não é linear, depende dos objetivos de cada produtor. É evidente que se os objetivos forem ambiciosos e de chegar o mais longe possível, a resposta é um claro “sim”. Porquê? Porque ao optar por editar por uma editora um artista está a usar um poder de distribuição e divulgação que sozinho dificilmente conseguirá. Verificar este alcance é bastante fácil, basta ver quantos seguidores a editora tem nas várias redes: Quantos subscritores no canal de YouTube? Quantos seguidores no Soundcloud? Quantos fãs no Facebook? Instagram? Twitter? Se fizerem as contas por alto vão ter noção do alcance e da exposição que a vossa música terá ao ser divulgada naquelas plataformas. Além desta maior exposição há também a questão do prestígio. Acrescenta valor a um produtor poder nomear algumas editoras pelas quais já editou, e quanto mais de topo for essa lista dentro de cada estilo musical, mais credibilidade e prestígio é acrescentado ao trabalho. Este é o melhor caminho, o que melhor cimenta e alicerça uma carreira, mas também é o mais difícil e o que tem uma consequência implícita: a música deixa de ser vossa, ao licenciarem o fonograma estão a transferir a propriedade do master para a editora por um período de tempo que pode variar entre alguns anos a ilimitado, dependendo do contrato assinado.

Qual é a outra opção? É o tão amado faça-você-mesmo (DIY) que se tornou muito mais interessante na era da rede global de alta velocidade. Este caminho é mais fácil em termos de edição, o mais rápido (no sentido em que acabam um tema e podem rapidamente editá-lo), o que vos permite manter a propriedade total da vossa música, mas é também um caminho muito mais lento e tortuoso no que diz respeito à construção de uma carreira. Dentro do Faça-você-mesmo há dois caminhos: o da edição de autor, em que se usa uma plataforma para fazer a distribuição digital e todo o trabalho de uma editora, ou o download gratuito. E este último, apesar de infinitamente mais fácil e acessível, deve ser usado com moderação. Porquê? Porque se for um recurso habitual de um produtor barateia o trabalho e não garante uma exposição maior, ou seja, a longo prazo é um tiro no pé em termos de gestão de carreira. Ao disponibilizar gratuitamente a sua música ao longo de algum tempo os músicos ou produtores criam na mente de quem os segue uma ideia de desvalorização que fica associada ao seu trabalho. Este é um recurso que deve ser utilizado apenas em ocasiões especiais como, por exemplo, atingir um determinado número de fãs ou seguidores numa rede, ir tocar a um palco grande e, em comemoração desse facto oferecer um tema novo, ou seja, qualquer situação que seja digna de destaque.

Avaliadas as opções vamos então ajudar-vos a organizar o trabalho para tentarem a vossa sorte junto das editoras. Mas antes é nossa obrigação avisar-vos de algumas coisas:

  • É um trabalho demorado e difícil
  • A concorrência é mundial
  • Devem fazê-lo mostrando apenas o vosso melhor
  • Há interesses instalados, habitualmente ligados ao negócio

Por isto há que ter noção que devem usar toda a vossa resistência e resiliência e não podem esmorecer ao primeiro “não”, porque o que é natural é que venham a ouvir muitos. Convençam-se disso, podem estar a mostrar as pérolas da vossa alma, trabalho que fizeram com todo o vosso empenho e dedicação, o vosso tema até pode ser melhor que alguns do catálogo da editora mas podem ouvir um “não” na mesma, ou, pior ainda, nem vos responderem (o que é normal, por motivos que vos explicaremos mais à frente).

A segunda parte do trabalho é de perceber em que catálogo de que editora a vossa música faz sentido, ou seja, as editoras costumam ter uma linha editorial em termos de estética musical, por isso é como encontrar o sapato da Cinderela, a vossa música tem que fazer sentido no catálogo da editora para a qual vão enviá-la. Este ponto é talvez dos mais trabalhosos, porque implica conhecer as várias edições de uma editora, e também dos mais importantes porque os A&R (Artistas e Repertório, a pessoa dentro de uma editora que seleciona a música que é editada) recebem muita música que não faz qualquer sentido na editora que dirigem, e é também este o motivo pelo qual muitas vezes não respondem aos e-mails, o que é que se diz a alguém que não fez o trabalho de casa de se informar sobre a editora para onde enviou a música? Ou a alguém que não percebe a linha musical daquela editora e, por isso, envia um tema que não faz sentido ali? Este trabalho é importante – o de só enviar música para editoras onde ela faça sentido – porque preserva o vosso nome e imagem perante os players da indústria, as pessoas que podem ser decisivas na vossa carreira.

O último ponto desta introdução é o menos “romântico” mas tem que ser explicado. A venda de música não é aliciante, ou seja, as editoras não dão dinheiro, motivo pelo qual normalmente a edição musical está ligadas a outras áreas de negócio que, essas sim, dão lucro. ‘Qual é a importância disto’, perguntam vocês convencidos que o que mais importa é a música. Estou convosco neste ponto, sem dúvida absolutamente nenhuma que a música é o mais importante, mas para que a música funcione – e aqui importa distinguir o valor da música do seu funcionamento ou sucesso – é necessária toda uma máquina de promoção, marketing, e distribuição que só pode ser mantida com dinheiro. E é neste ponto que as águas divergem, para dar lucro uma editora é usada como rampa de promoção de alguns artistas e, provavelmente, recebe uma parte dos rendimentos destes. Por isso é que vocês vêm os mesmos nomes a editar sucessivamente numa determinada editora, porque são o grupo cujo trabalho (e não música) sustenta a edição musical. Compreendem agora? É por este motivo que muitas vezes encontram música editada em labels que admiram que não é assim tão nova, interessante ou diferente. E é também por isto que há pouco espaço para novos artistas ou talentos em editoras grandes e de referência. Mas há algum! Porque as editoras estão constantemente à procura da “next big thing”, da próxima evolução sónica, e de algo diferente, e é para esse 10% de hipóteses que vocês vão trabalhar! Têm é que perceber que é uma tarefa muito dura com muito poucas chances e os motivos que justificam isto. Estão entusiasmados? Vamos trabalhar!

1º Passo – Qualidade e Inovação

Já atrás referi o primeiro ponto, o facto de a qualidade de produção e de som ser enorme nos nossos dias deve preocupar-vos e não devem enviar nada que não esteja na melhor qualidade que vos é possível. Leiam tutoriais, lembrem-se que a mistura e masterização são diferentes da produção, procurem toda a informação e ajuda possíveis quando se trata de conseguir a melhor qualidade sonora.

A inovação é fundamental, se copiarem ideias de outros, se seguirem modas vão ficar seguidores e nunca inovadores. Se não procurarem o “vosso” som, a vossa assinatura sónica – por mais complicado que isto seja – nunca o irão encontrar. Por isso coloquem o nível alto e trabalhem nessa direção. Sejam ousados ao ponto de querer ter uma assinatura sonora, ou seja, que quando as pessoas ouvem uma música vossa saibam instantaneamente reconhecer o vosso toque. É difícil? É. É impossível? Não, só depende do empenho, dedicação e trabalho que puserem no vosso talento.

2º Passo – Conhecer a Vossa Música e Conhecer as Editoras

Sabemos que é complicado ser juiz em causa própria mas é fundamental que saibam que estilo de música produzem, e, mais que tudo, em que editoras ela faria sentido. Este ponto parece simples mas é importantíssimo. A maioria dos produtores confunde “as editoras onde a sua música faz sentido” com “as editoras onde eu gostava de editar”, e isto, meus caros, pode ser fatal e aniquilar as vossas hipóteses junto de uma editora. Porquê? Porque não há nada mais irritante e frustrante do que um A&R de uma editora receber música que não faz sentido no catálogo que gere, porque isso significa que quem envia a música não fez o básico: o trabalho de casa de conhecer a editora e catálogo. Por isso antes de enviar o que quer que seja ouçam as edições mais recentes das editoras que gostam e para onde pretendem enviar a vossa música e façam o exercício de se colocar no lugar de quem vai receber.

3º Passo – Criar uma Rede de Contatos

Este é um ponto que leva tempo e consome energias mas é também fundamental. A vossa primeira rede de contatos deve ser com outros artistas: produtores que admirem, que seguem, com quem gostariam de colaborar no futuro. Tenham a noção que é muito complicado um artista de renome colaborar com um produtor desconhecido. Acontece, mas é raro. Por isso não andem por aí a propor colaborações a tudo quanto é produtor que admiram, porque só estão a baratear o vosso valor e trabalho. Esperem pelo momento certo, pelo momento em que têm uma melodia ou uma música feita que acreditam ser do agrado daquele produtor e, depois de verificar que ela está na sua melhor qualidade, enviem um link de Soundcloud privado para o vosso escolhido ouvir. Não enviem o projeto ou a música até terem e-mails que comprovam a vontade mútua de colaborar. Isto para evitar o desapontamento de serem roubados.

Ao criarem a vossa rede de contatos com outros artistas estão a aumentar as hipóteses de editar porque estão a ampliar a rede de pessoas que pode ouvir a vossa música, entre os produtores, as editoras por onde eles editam, as pessoas ligadas à indústria que podem ouvir o vosso trabalho.

O segundo nível de contatos é o das editoras. Este é um trabalho chato mas que deve ser feito. Se tiverem hipótese, e fundos, para ir a conferências como o Amsterdam Dance Event isso é um passo de gigante. Sendo desconhecidos não vão conseguir marcar reuniões com editoras mas basta ler o programa das conferências com atenção e ver onde vão estar os A&R e outras figuras a quem querem mostrar o vosso trabalho. Vão à conferência, aguardam pelo final, e no fim apresentam-se e entregam o que querem mostrar. Peçam um cartão de visita e entreguem o vosso, vão ficar com os contatos das pessoas que importam. Se ainda não tem trabalho que justifique ou condições monetárias para ir ao ADE podem fazer o trabalho a partir de vossa casa. O primeiro passo é procurar as editoras online e descobrir quem são os A&Rs. Isto nunca foi tão fácil como hoje, seja pelo Linkedin, Facebook, sites institucionais, Skype e afins é possível pesquisar por nomes, funções, e empresas. Dá trabalho, é chato, mas têm que o fazer. Com estas informações criem um base de dados (em Excel ou noutro programa que vos dê jeito) onde incluam campos como: Editora; Nome da Pessoa; Cargo da pessoa; E-mail; Telefone; Site; Facebook e Notas. Vão ficar com uma base de dados de referência rápida que vos vai permitir ter toda a informação que precisam disponível na altura de enviar música.

4º Passo – Boas Práticas ao Enviar Música

Quando chegar a hora de enviar a vossa música, e cumpridos os passos atrás, há algumas boas práticas que devem seguir. Em primeiro lugar não devem disparar a vossa música para toda a gente sem Rei nem Roque, é “chunga” e barateia o vosso trabalho. Controlem o impulso de querer mostrar a toda a gente de uma só vez. Delineiem uma estratégia. Como é que isto se faz?

  • Lista de editoras prioritárias: Quais são as 5 editoras da vossa preferência? Ordenem-nas por ordem de importância e enviem e-mails nessa ordem.
  • O e-mail: a vossa mensagem deve ser sintética e fácil de ler, e sem erros ortográficos. Se precisam de ajuda usem um corretor ortográfico online ou peçam a um amigo que domine o Inglês para vos escrever o texto e, ainda assim, verifiquem no corretor. O e-mail deve conter duas a três linhas da vossa biografia, quem são, de onde são, o que já fizeram digno de nota. E mais duas linhas sobre a música que estão a enviar. Ou seja, cinco linhas no máximo, e o link privado de Soundcloud com a vossa música. Não enviem ficheiros, nem links para descarregar, ninguém o faz. E há grandes hipóteses que este primeiro E-mail seja apagado, mas já lá vamos.
  • Follow Up: Deem uma semana de intervalo entre o primeiro e o segundo E-mail. O mais provável é que ninguém vos responda nesse período de tempo – os A&Rs recebem milhares de temas para ouvir e vão ouvi-los por ordem de nomes conhecidos, logo é natural que o vosso nome fique para o fim ou até que seja apagado sem ouvir (isto é algo que podem controlar nos plays do Soundcloud, se enviarem 5 e-mails esperem 5 plays, se não houver plays é porque ninguém ouviu). Uma semana depois do primeiro E-mail, e sem terem tido resposta, reenviem com apenas uma frase escrita: “Olá, recebeu este meu e-mail? Aguardo notícias”. Simples e conciso. Aguardem uma semana e, se não houver qualquer resposta, é altura de começar a enviar para as próximas 5 editoras da vossa lista, recomecem o processo com novos contatos. Passado duas semanas do segundo e-mail podem enviar aquele que será o vosso último e-mail para as primeiras cinco editoras da vossa lista, e pode ser exatamente igual ao segundo e-mail. O processo é este até conseguirem algum feedback, seja ele positivo ou negativo.

Encham-se de coragem e entusiasmo e mãos à obra!

 

 

 

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