Quinta-feira, Agosto 16

Autópsia Psicológica da Morte de AVICII

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Por Samuel Pombo

Professor de Psicologia da Faculdade Medicina Lisboa

Assim como todos temos personalidade, todos temos padrões de comportamento que, em grande medida, são impostos pela biologia. Cada criança entra no mundo com um padrão distinto de sensibilidades emocionais e comportamentos. Muitas dessas diferenças persistem até a idade adulta, permanecendo inalteráveis. A essas características precoces e estáveis ao longo da vida, biologicamente determinadas, nós chamamos de temperamento. Vários relatos, incluindo do próprio, referem que Avicii era tímido e tinha um temperamento introvertido. A introversão é uma característica que favorece a reflexão solitária em detrimento da socialização. De uma forma muito simples, ser introvertido é estar focado em si mesmo (para dentro) enquanto ser extrovertido é estar voltado mais para fora. Os introvertidos cultivam uma atmosfera confortável para si mesmos, gostam de passar tempo sozinhos e são, por regra, bastante produtivos nesse contexto. Trabalhar sozinho parece apresentar-se como mais estimulante do que trabalhar com os outros, e as interações sociais podem ser mais desgastantes do que estimulantes. Os introvertidos falam menos, exercitam mais a escuta do que o discurso, refletem antes de responder aos outros e podem permanecer focados nas coisas sem falar com facilidade e durante muito tempo. Não existe nada de errado em ser introvertido, todavia se as nossas escolhas de vida violarem fortemente o nosso ritmo interno de funcionamento emocional, leia-se personalidade, por exemplo, querendo funcionar artificialmente como se … fossemos extrovertidos quando na verdade não é essa a nossa essência, infligimos um nível de stress contínuo às nossas vidas que a determinada altura tornar-se-á ingovernável, qual “peixe completamente fora de água”. Pessoas com um temperamento introvertido ficam imediatamente constrangidas se não respeitarem a sua necessidade de privacidade e lidam muito mal com a exposição social. Era isso que parecia acontecer com Avicii, em que o seu temperamento introvertido o obrigava a viver com grande sofrimento os holofotes da exposição mediática.

O álcool é das substâncias mais abusadas na população em geral. O seu uso nocivo contribui de uma forma importante para o risco de morte prematura e de doença. Por exemplo, o risco de morte por afogamento, queda e suicídio é maior em indivíduos alcoolizados. Por ser um depressor cerebral, ou seja, produz uma sedação no funcionamento do cérebro, é muito utilizado como mecanismo para contrariar a ansiedade, como se o álcool fosse um “medicamento” para o mal-estar psicológico. Recordo que a ansiedade e a pressão social são estados emocionais dolorosos e debilitantes. Contudo, a relação entre a ansiedade e o consumo do álcool é complexa e bidirecional, ou seja, ambos se agravam mutuamente. Por vezes, a pessoa que se “automedica” com álcool nem se apercebe da ansiedade, só se foca nos efeitos de alívio que a substância provoca. No entanto, o alívio é de curta duração e a pessoa tem de aumentar a dose e a frequência do consumo para obter o resultado desejado. Este processo coloca a pessoa num grande risco para desenvolver alcoolismo. Falamos de alcoolismo (em rigor, adição) quando pretendemos descrever qualquer consumo de álcool que cause problemas de saúde físicos ou mentais. Sabe-se que o consumo excessivo do álcool leva a uma série de problemas orgânicos, sendo um dos mais frequentes a inflamação do pâncreas, quadro clínico que começou a torturar Avicci e que se desenvolveu secundariamente a um consumo do álcool descontrolado e verdadeiramente cavalar. 

A pancreatite crónica é uma condição médica, debilitante, com longo prazo de evolução e que afeta drasticamente a saúde e a qualidade de vida da pessoa. A doença envolve a inflamação persistente do pâncreas, tendo como sintoma característico a dor abdominal grave. Inicialmente, aparecem episódios de dor aguda extrema. A progressão da doença é marcada pelo aumento da ocorrência e gravidade das crises de dor, culminando em dor crónica, náuseas e vómitos. As crises de dor intrusiva afetam gravemente o dia-a-dia, com interrupções frequentes da ocupação profissional ou do sono. Podem ocorrer também uma série de sintomas gastrintestinais aflitivos, incluindo intolerância a alimentos, incapacidade de comer, anorexia, fadiga, diarreia, icterícia, etc.. O prognóstico da pancreatite crónica é variável e é, em grande medida, afetado pelo consumo contínuo de álcool. Viver com esta condição crónica requer continuadamente cuidados de saúde, impactando irremediavelmente a qualidade de vida da pessoa. São formas de sofrimento o causado pela doença e o seu tratamento, o causado pelos próprios cuidados e o sofrimento relacionado a própria existência. A doença acarreta um estado de aflição estimulado pela ameaça de desintegração do ego. A dor incontrolável simboliza uma ameaça à integridade da personalidade. O doente tem de abandonar o seu papel social habitual e vê-se forçado a adotar um “papel de doente”, o qual perturba a sua auto-identidade e pode ser uma fonte de conflito interno. Obviamente que cada um ajuíza o significado de viver com uma doença crónica como a pancreatite crónica dentro do contexto da sua própria vida, mas a maioria avalia negativamente. A pessoa sente que já não consegue controlar o presente e o futuro é imprevisível. Isso causa uma incerteza e abre uma vulnerabilidade que se materializa num sofrimento psíquico terrível projetado numa angústia existencial. O afastamento do papel social comum inclui uma mudança psicológica profunda de reorientação e redefinição de um projeto de viver que, por vezes, mantem a pessoa perdida num processo de avanços e retrocessos infindáveis. 

A determinada altura Avicci começou a sofrer de ataques de pânico. Talvez o foco excessivo e indesejado sobre o corpo doente tenha contribuído para o aparecimento desses ataques, na medida de que uma crise de pânico é uma experiência de perda de controlo absoluta sobre o corpo. Passo a explicar: Imagine que sem qualquer motivo aparente, de repente, começa a ter vertigens, tonturas, taquicardia, palpitações, coração acelerado, transpiração, sensação de falta de ar, formigueiros, calafrios, entre muitas outras sensações corporais desagradáveis. Ao mesmo tempo, tem a forte impressão de estar a perder o controlo sobre o seu corpo ou enlouquecer e começa a acreditar que está a desmaiar ou até mesmo a morrer (por ex., sensação de morte iminente por ataque cardíaco, asfixia ou acidente vascular cerebral). Estas crises, que são geralmente súbitas, repentinas, imprevistas, espontâneas e recorrentes, são denominadas de ataques de pânico, ou seja, de ansiedade aguda, de medo aterrador. Como estas crises acontecem de forma súbita, em situações variadas, e são muito assustadoras, as pessoas começam a sentir-se inseguras e pouco confiantes em ficar sozinhas ou sair à rua desacompanhadas. Com isso passam a fazer muitas coisas apenas na companhia de alguém, na ideia de que se acontecer algo, o acompanhante poderá tomar providências, como levá-las a um médico ou para casa ou para outro local sentido como seguro. Com o aumento progressivo da insegurança, passam a ser evitadas várias situações: fazer coisas sozinho e enfrentar certas situações como passar por túneis ou pontes, andar de avião ou conduzir automóveis, frequentar cinemas, ou teatros, andar em elevadores, etc. A vivência desta problemática do pânico pode ter agravado um quadro depressivo previamente instalado, gerando fortes sentimentos de tristeza e sensações de impotência em relação à incapacidade de controlar as crises. A pessoa fica fragilizada, desmoralizada, desconfia de si próprio e critica-se, questionando-se quanto à sua capacidade de lutar contra este problema. 

O sofrimento não dava tréguas …

Nota: Este artigo tem como objetivo compreender o contexto de sofrimento em ocorreu a morte de Avicci e não criar nexos de causalidade com o suicídio.

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